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Em uma sociedade doente ser saudável é radical

28 de abril de 2020

A sabedoria dos textos clássicos ayurvédicos pode nos ajudar a repensar crenças e atitudes quanto ao que significa ter saúde nos tempos modernos.

A sabedoria dos textos clássicos ayurvédicos pode nos ajudar a repensar crenças e atitudes quanto ao que significa ter saúde nos tempos modernos.

por Vd. Matheus Macêdo e Anelize Moreira, gerente de escrita do Vida Veda

Há semanas que você não se sente bem de saúde e decide procurar um médico. Ele pede exames e, ao ver os resultados, conclui que você está ótima e que não há motivo pra preocupação: nenhuma doença foi diagnosticada. Você insiste que não está se sentindo bem, e ele diz: “vá pra casa, você não tem nada”. Apesar de esta cena ser comum em consultas médicas convencionais, pela medicina ayurvédica, um vaidya não chegaria a essa mesma conclusão.

“O que é uma pessoa doente, de acordo com os textos clássicos do Ayurveda?” Essa foi a pergunta de um seguidor do Vida Veda no projeto 0800. A resposta é simples: se existe sofrimento, a pessoa está doente. Doença é igual a duhkha, que significa sofrimento, de qualquer natureza, seja física ou psicológica. Se uma pessoa não se sente bem, não está feliz, então, de acordo com a visão ayurvédica, está doente.

Alguns pacientes desenvolvem uma espécie de síndrome de estocolmo com o sofrimento: fenômeno da psicologia que explica quando uma pessoa, que sofre uma violência, se apaixona pelo agressor. Apesar de estar em uma situação negativa, o doente se apega ao sofrimento e não sabe se ver sem a doença.

Quando estamos doentes, geralmente somos bem cuidados, recebemos mais amor, atenção e nos desobrigamos de olhar a vida sob outras perspectivas. Então ficar doente torna-se algo bom, porque nessa situação a gente é mais amada mesmo sendo um problema, a doença torna-se positiva. Esse é o maior perigo: quando o doente nega a cura, com medo de perder algo importante que a doença traz.

O sofrimento é o lugar conhecido. Ser saudável é ser aquilo que você não conhece ou acredita que nunca alcançará, porque depende de muita coisa; geralmente, acabamos por escolher a primeira opção por nos deixar dentro da nossa zona de conforto. Esse é o terrível perigo do conhecido: quando ele se torna parte de você. Vira o “meu” sofrimento, a “minha” dor, o “meu” câncer, o “meu” trauma.

Uma pessoa que sofre de dor crônica por décadas quer viver livre da dor, mas ao mesmo tempo se apega àquela situação, como se pra ela não fosse permitido ser saudável, nem realizar atividades prazerosas, tampouco viver uma vida mais plena.

E, nesse caso, o sofrimento a longo prazo pode virar uma identidade, e passar a caracterizar como a pessoa se define no mundo. E, apesar de tudo, é melhor ter uma identidade, por pior que ela seja, do que não saber quem você é.

Podemos ir além, e relacionar esse apego com trabalho ruim, relações tóxicas, estilo de vida inadequado, alimentação de má qualidade, e por aí vai… É comum, num contexto como esse, dar uma infinidade de desculpas pra justificar a nossa decisão de permanecer em uma situação que não nos faz bem. Quem nunca?

Você pode ter um emprego com carteira assinada, bom salário e cargo promissor, ser reconhecido na empresa… Só que, ao acordar e se dirigir pro trabalho, você se perceber infeliz todos os dias. Apesar de não se sentir bem e sofrer cotidianamente, vai se mantendo nele e empurrando com a barriga, afinal esse trabalho paga as suas contas, mantém tudo no seu devido lugar, inclusive, a presença do sofrimento.

O que queremos dizer é que, no fundo, sabemos o que não nos faz bem, mas nos apegamos e ficamos presos a um lugar ruim, às vezes por toda a vida. O mesmo acontece com relação àquele alimento que, embora sabendo que não lhe faz bem, que é um hábito que sequestra a sua saúde e a sua felicidade, você desenvolve uma relação ruim com ele, quase uma necessidade, um vício.

E assim a gente vai levando uma vida sem exercer o nosso potencial, e que nem de longe é aquela com a qual tínhamos sonhado. Mesmo tendo outras possibilidades à vista, preferimos fechar as janelas pra não ver o mundo que está fora, a nossa espera, pra ser vivido.

Olhar para o sofrimento e as escolhas atreladas a ele é difícil, mas necessário, ainda mais em períodos como esse de pandemias, que nos voltamos pra dentro literalmente. Toda escolha inclui um custo de oportunidade, termo econômico que significa que toda vez que você toma uma decisão, ela não traz só o que você ganhou, mas é o que você deixou de ganhar.

O problema não é a escolha lá atrás, que pode ter sido a melhor possível; a questão é: ela ainda faz sentido no momento presente? Ou será que se acostumou em não ser tão feliz assim e o que se permite é uma vida que está abaixo do padrão que você poderia viver? A questão é identificar que você pode, sim, sair deste lugar e conquistar um melhor. O primeiro passo pra se curar é ter consciência da doença. A vida é limitada pela nossa capacidade de visão, pelas nossas crenças que moldam a nossa vida e determinam o quão longe podemos chegar.

As doenças que você tem e não confronta, as tristezas que você tem e não confrontou, os limites que você impõe pra si e não confronta, eles continuam a existir, mesmo sendo colocados debaixo do tapete.

As suas escolhas estão te levando na direção que você quer? Estamos navegando num barco sempre em meio a uma tempestade, mas, por ser um lugar conhecido, permanecemos ali enfrentando as tormentas. Só que muitas vezes não estamos enxergando o barco ao lado, com salva-vidas, porque ele simboliza o desconhecido.

Resumindo, se você tem duhkha (sofrimento) na sua vida, então está doente. Refletir sobre como ter uma vida saudável, se ela está mais feliz ou mais triste é a principal tarefa do Ayurveda. Se, em uma sociedade doente, ser saudável no sentido mais amplo da palavra é sinônimo de ser radical, então sejamos todos radicais para vivermos de forma plena.


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